Este artigo foi originalmente publicado no Infociências.

autor: Otília Correia

 

Reabilitação em Pedreiras Calcárias
Projecto 1
Projecto 2
Projecto 3


Projectos de reabilitação em pedreiras calcárias

A exploração de pedreiras, especialmente quando realizadas a céu aberto, tem originado grandes extensões de áreas degradadas por toda a Bacia do Mediterrâneo sobretudo a partir do século XX.
Em Portugal muitas destas explorações situam-se em zonas de grande valor paisagístico e ecológico, com estatuto de áreas protegidas, como são as Serras d’Aire e Candeeiros (PNSAC) e a Serra da Arrábida (PNA). Estas explorações têm vindo a aumentar nos últimos anos e, em muitos casos, a ausência de controlo e fiscalização tem provocado alterações ambientais com repercussões desconhecidas no que respeita à biodiversidade e aos ecossistemas, mas bem evidente a nível de impacto visual. Apesar de o decreto-lei 227/82 obrigar os proprietários à recuperação após a exploração através da regularização do coberto vegetal e dos solos, existem nestas áreas protegidas numerosas crateras resultantes de pedreiras abandonadas desde há décadas.
A exploração de pedreiras origina alterações profundas ao nível dos solos, uma vez que leva à destruição total da vegetação e do próprio solo, alterando profundamente todo o relevo da região e a paisagem. Criam-se situações onde se verifica uma ausência generalizada de condições para a regeneração espontânea da estrutura vegetal e da paisagem, como é o caso das rochas nuas, com grande declive e sem solo, onde é impossível a fixação de espécies vegetais. Este impacto, é especialmente dramático quando associado a factores de intenso stress como é o caso das zonas de clima mediterrânico. Para além deste impacto, há a considerar ainda a acumulação de grandes massas de escombros resultantes desta actividade e o impacto das poeiras nas regiões envolventes.
Neste sentido é urgente desenvolver programas de recuperação ou reabilitação destas áreas degradadas pela exploração das pedreiras, com vista à sua valorização.
É importante a promoção de estudos científicos sobre as espécies vegetais mais aptas a colonizar estes habitats de modo sustentável e sobre as condições ecológicas necessárias não só ao seu crescimento e estabelecimento mas também sobre as condições ambientais que se estabelecem e que poderão contribuir para o acelerar da sucessão.
Desde 1997, e no âmbito de vários projectos, o Centro de Ecologia e Biologia Vegetal (CEBV) da Faculdade de Ciências de Lisboa, tem vindo a fazer um acompanhamento científico das experiências de revegetação em curso nas pedreiras da SECIL, no Outão (Serra da Arrábida).

SELECÇÃO E FIXAÇÃO DE ESPÉCIES VEGETAIS EM SOLOS DESERTIFICADOS OU DEGRADADOS. ESTUDOS PARA A RECUPERAÇÃO DA PAISAGEM E ECOSSISTEMAS MEDITERRÂNICOS.

GESTÃO ECOLÓGICA DE ÁREAS REVEGETADAS: UM CASO ESTUDO EM PEDREIRAS CALCÁRIAS MEDITERRÂNICAS

ECOTECHNOLOGY FOR ENVIRONMENTAL RESTORATION OF LIMESTONE QUARRIES

 

 

SELECÇÃO E FIXAÇÃO DE ESPÉCIES VEGETAIS EM SOLOS DESERTIFICADOS OU DEGRADADOS. ESTUDOS PARA A RECUPERAÇÃO DA PAISAGEM E ECOSSISTEMAS MEDITERRÂNICOS.

Duração: 1 Outubro de 1997 – 31 de Março de 2000 (30 meses)
Coordenador Científico: Otília Correia, Professora Associada, Departamento de Biologia Vegetal, Centro de Ecologia e Biologia Vegetal (CEBV).
Membros da Equipa nacionais e estrangeiros: Otília Correia, Professora Auxiliar, DBV/FCUL; Amélia Loução, Prof. Catedrática, DBV/FCUL; Cristina Máguas, Prof. Auxiliar, DBV/FCUL; Ana Isabel Correia, Prof. Auxiliar, DBV/FCUL; Cristina Branquinho, Investigadora, CEBV; Christiane Werner, Bolseira, CEBV; Adelaide Clemente, Bolseira, CEBV; Patrícia Correia, Bolseira, CEBV; Gisela Oliveira, Bolseira, (PRAXIS XXI (BTI/14384/97), CEBV; Pedro Lino, Estagiário, CEBV; Herculana Costa, Técnica, DBV/FCUL; Salomé Cabral, Prof Associada, DEIO/ FCUL; Helena Freitas, Prof. Associada, DB/FCTUC.
Fonte(s) de financiamento do Projecto: Programa PRAXIS/PCNA/C/BIA/180/96 – Fundação para a Ciência e Tecnologia

Resumo do Projecto e resultados obtidos:
Com este projecto iniciou-se o acompanhamento científico das experiências de revegetação em curso desde 1983 nas pedreiras da SECIL no Outão (Serra da Arrábida), visando optimizar a relação custo-benefício. Neste sentido, o principal objectivo do projecto foi a obtenção de informação biológica e ecológica relativa a espécies mediterrânicas potencialmente colonizadoras de áreas degradadas do ponto de vista biótico e abiótico.
Os estudos decorreram essencialmente na pedreira de calcários e margas, à excepção dos estudos sobre o impacto das poeiras que incidiram por toda a área da propriedade da SECIL e zonas envolventes. A exploração da pedreira tem vindo a ser efectuada no sentido descendente, dando origem a uma sucessão de patamares e escarpas com uma diferença de cotas de 20 m, o que permite a revegetação dos patamares com espécies arbóreas e arbustivas, à medida que vai cessando a exploração.
Para o desenvolvimento do projecto foram consideradas várias linhas de investigação.

1. Avaliação do coberto vegetal em patamares revegetadas.
Foram efectuados estudos de diversidade, sobrevivência e cobertura nos patamares revegetados desde há 15 anos, de forma a perceber quais as espécies que mais rapidamente cobrem os patamares e alteram de forma significativa o habitat.

2. Revegetação de áreas recentemente exploradas.
Esta linha de investigação teve como objectivo analisar o efeito de vários tratamentos ao nível do substrato (aplicação de polímeros hidrofílicos, fungos micorrizicos e fertilizantes), de forma a melhorar a disponibilidade hídrica e/ou nutricional no estabelecimento de 3 espécies esclerófilas mediterrânicas em plataformas de calcário. Pretende-se seleccionar o tratamento e a espécie que melhor contribuem para a reabilitação destes sistemas.

3. Impacto da actividade das pedreiras no coberto vegetal envolvente.
Esta linha de investigação teve como objectivos: a) avaliar impacto espacio/temporal da deposição de poeiras atmosféricas nas imediações da cimenteira da SECIL, utilizando biomonitores e b) avaliar o efeito da deposição de poeiras nas características fotossintéticas das espécies dominantes, como forma de avaliação da produtividade e consequentemente da competitividade e sobrevivência nestas condições.

Conclusões do projecto
Os resultados obtidos demonstram que é fundamental a intervenção do homem na recuperação de pedreiras, pois o processo natural de colonização por parte das espécies vegetais é um processo muito lento. Tornou-se evidente com este projecto que a recuperação destas paisagens é possível a curto-médio prazo com a revegetação artificial.
Foi possível apontar algumas estratégias alternativas de revegetação destes habitats, bem como estratégias de gestão da própria revegetação, que deve ter um acompanhamento contínuo ao longo do tempo, no sentido de orientar e acelerar o processo sucessional através de intervenções diversas.
Estes resultados poderão fornecer uma base de trabalho para a recuperação não só das pedreiras recentemente exploradas, como também para a reabilitação de pedreiras há muito abandonadas e cujo processo de colonização é muito pouco visível, ou até de outras áreas degradadas resultantes de diferentes formas de perturbação, permitindo reabilitar paisagens em áreas de valor paisagístico muito importante.

Num programa de revegetação, são três os aspectos principais a ter em conta:
(i) o substrato – solos,
(ii) a cobertura vegetal – espécies vegetais
(iii) a gestão da revegetação

No futuro, em termos de reabilitação de pedreiras sugere-se que se preste mais atenção aos solos e à sua formação, já que sendo possível aproximar o coberto vegetal das populações originais num período de tempo relativamente curto, pelo menos em termos de espécies arbustivas, em relação aos solos a evolução é comparável à que se observa em condições naturais, ou seja muito lenta. Deverão ser implementadas estratégias no sentido de evitar a erosão, como por exemplo uma cobertura vegetal mais efectiva ao nível do solo, através da introdução de espécies herbáceas perenes e acelerar a formação do solo através do uso de diferentes tipos de matéria orgânica.
Por outro lado, após a conclusão da revegetação deve existir um acompanhamento da evolução desta, no sentido de avaliar o seu desenvolvimento e a necessidade de aplicação de algum tipo de manipulação, que permita o natural desenvolvimento da vegetação, evitando e aliviando alguns constrangimentos resultantes desta e que permitam o acelerar da sucessão.

 

 

 

GESTÃO ECOLÓGICA DE ÁREAS REVEGETADAS: UM CASO ESTUDO EM PEDREIRAS CALCÁRIAS MEDITERRÂNICAS

Protocolo de Assessoria Técnica e Investigação Cientifica entre a SECIL e o Centro de Ecologia e Biologia Vegetal (FFCUL)

Duração: 1 Janeiro 2002 – 30 Junho 2004 e 1 de Julho de 2004 – 30 Junho de 2007 (30 meses + 36 meses renovação)
Coordenador Científico: Otília Correia, Professora Associada, Departamento de Biologia Vegetal, Centro de Ecologia e Biologia Vegetal (CEBV).
Membros da Equipa nacionais e estrangeiros: Otília Correia, Prof. Associada, DBV/FCUL; Amélia Loução, Prof. Catedrática, DBV/FCUL; Manuela Carolino, Prof. Auxiliar DBV/FCUL; Graça Oliveira, Investigadora, CEBV; Adelaide Clemente, Investigadora, CEBV; Patrícia Correia, Bolseira de doutoramento, CEBV; Ana Catarina Afonso, Licenciada, Bolseira de doutoramento, CEBV; Alice Nunes, Licenciada, Bolseira de investigação cientifica, CEBV
Fonte de financiamento do Projecto: SECIL – Protocolo de Assessoria Científica

Resumo do Projecto e resultados esperados:
Tendo em consideração os resultados obtidos no projecto inicial (PRAXIS/PCNA/C/BIA/180/96) em que se apontou a necessidade de desenvolver algumas estratégias e técnicas de gestão a aplicar nas áreas revegetadas, nomeadamente a redução da competição intra e interespecífica entre as espécies pioneiras de crescimento rápido e as espécies esclerófilas, foi iniciado um programa de gestão da revegetação da pedreira.
Para o desenvolvimento do projecto foram consideradas várias linhas de investigação.

1. Redução da competição através de um desbaste selectivo de pinheiros, com vista a promover o desenvolvimento de espécies, e acelerar os estádios sucessionais naturais.

A redução da competição foi efectuada através de um desbaste selectivo de pinheiros, de forma a aumentar o desenvolvimento das outras espécies acelerando os estádios sucessionais e reduzindo igualmente a competição intraespecifica. Pretende-se determinar o valor óptimo de intensidade de desbaste e a idade da vegetação após a revegetação, para este tipo de manipulações.
O efeito do corte dos pinheiros, será avaliado nas condições microclimáticas, no estabelecimento e desenvolvimento das plântulas e no desenvolvimento e crescimento das espécies esclerófilas previamente introduzidas durante a revegetação e ainda nas características físicas, químicas e microbiológicas do solo.

2. Continuação dos estudos iniciados no programa anterior de forma a avaliar o efeito dos diferentes tratamentos aplicados, desde 1998, no crescimento e relações hídricas das espécies introduzidas.

Esta linha de investigação pretende seleccionar o tratamento e a espécie que melhor contribuem para a reabilitação destes sistemas.


3. Monitorização da revegetação das escarpas resultantes da exploração.
No caso particular das escarpas, a recuperação torna-se extremamente difícil, devido ao seu declive acentuado, ao constante deslizamento de terras e blocos e à impossibilidade de criar um substrato, mesmo que artificial, para a implantação ou regeneração das espécies vegetais.
A monitorização da revegetação das escarpas, e a aplicação de algumas metodologias propostas permitirá apoiar decisões futuras no sentido de optar por técnicas ou estratégias mais convenientes em termos económicos e ecológicos. Por outro lado as informações obtidas servirão para rebater argumentos mal fundamentados de organizações ambientalistas e da população em geral relativamente ao sucesso do esforço aplicado na recuperação das pedreiras.

• Produção de plantas micorrizadas em viveiros
Estes ensaios pretendem determinar qual o tipo de inóculo micorrízico, substrato, e fertilizante mais recomendável para a produção de plantas em viveiro. O efeito dos tratamentos será avaliado através de medidas de diferentes parâmetros de crescimento e avaliação da micorrização.
• Monitorização das diferentes estratégias de revegetação já em curso nas escarpas de marga e calcário da pedreira do Outão
Este ponto envolve a realização de ensaios em pequena escala para optimização da técnica de hidro-sementeira e de pequenas experiências no sentido de avaliar a diversidade micorrízica do local, permitindo apresentar sugestões para maior rentabilização do investimento na tecnologia da hidro-sementeira e escolher o inoculo comercial com espécies fúngicas nativas e mais adaptadas à Pedreiras do Outão.
• Definição do conceito de sucesso para uma revegetação de escarpas

 

 

 

ECOTECHNOLOGY FOR ENVIRONMENTAL RESTORATION OF LIMESTONE QUARRIES (ECOQUARRY)


site do projecto

Duração: 1 de Setembro de 2004 a 31 Agosto de 2007 (36 meses)
Coordenador Científico: Otília Correia, Professora Associada, Departamento de Biologia Vegetal, Centro de Ecologia e Biologia Vegetal (CEBV), coordenador nacional.
Membros da Equipa nacionais e estrangeiros: Universidad de Barcelona. Facultad de Biología. Departamento de Biología Vegetal. (Ramon Vallejo, coordenador); UPC-DEAB. Universidad Polítécnica de Cataluña. Departamento de Ingenieria Agroalimentaria de Barcelona (R.Josa) CEIB-ESAB. Consorcio de la Escuela Industrial de Barcelona. Escuela Superior de Agricultura de Barcelona (A. Hereter). CREAF. Centre de Recerca Ecològica i Aplicacions Forestals (Dr. Josep M. Alcañiz). BERCONTES S.A. (explotación "el Telégrafo"). PROMSA. PROMOTORA MEDITERRANEA-2, S.A. (explotación "la Falconera"). ARICEMEX S.A (explotación "las Cubetas"). CEMENTOS MOLINS INDUSTRIAL S.A. (explotación "la Fou"). LAFARGE ASLAND S.A.(explotación "las Cuevas"). PEDRERES ROCA (explotación "Corral del Carro"). CANTERAS LA PONDEROSA S.A. (explotación "la Ponderosa"). CEMEX S.A. (explotación "la Martinenca"). GAC. Gremio de Áridos de Cataluña. AFCC. Agrupación de Fabricantes de Cemento de Cataluña. MA. Departamento de Medio Ambiente. Generalitat de Cataluña. Universidad de Alicante (J. Cortina). Departamento de Ecología. CEBV-FCUL. (Otília Correia, Prof. Associada, DBV/FCUL; Cristina Cruz, Prof. Auxiliar; DBV/FCUL; Manuela Carolino, Prof. Auxiliar, DBV/FCUL; Graça Oliveira, Investigadora, CEBV; Cristina Branquinho, Investigadora, CEBV; Alice Nunes, Licenciada, Bolseira, CEBV). SECIL. Companhia Geral de Cal e Cimento, S.A (C.Abreu, Júlio Abelho,. Almeida Barbosa). Áridos Costa Sur (explotación "Barranco ancho").
Fonte(s) de financiamento do Projecto: LIFE-AMBIENTE – LIFE04 ENV/ES/000195

Resumo do Projecto e resultados esperados:
Após a extracção dos recursos minerais, as áreas afectadas devem ser recuperadas e re-integradas no meio ambiente que as envolve tendo em conta factores paisagísticos e ecológicos. O resultado final dos projectos de recuperação depende da qualidade das intervenções durante todas as fases do processo, apoiadas em sólidas bases científicas e técnicas.

Objectivos
• Implementação das mais recentes inovações de recuperação em parcelas experimentais situadas em pedreiras sujeitas a clima mediterrânico.
• Melhoramento das intervenções de recuperação, com desenvolvimento de processos de controlo de qualidade normalizados.
• Promoção do uso racional e sustentável dos recursos naturais e do aumento da fixação do dióxido de carbono atmosférico.
• Transferência de processos directamente para grandes e pequenas empresas mineiras.

Fases do Projecto
1) Implementação de testes-piloto: utilização de espécies herbáceas apropriadas a cada zona de vegetação, aumento da diversidade de espécies arbustivas (por sementeira e plantação) e melhoramento da distribuição do coberto vegetal.
2) Controlo de qualidade: optimização dos recursos e da manutenção (e.g. frequência e dosagem da rega) e monitorização do desenvolvimento da vegetação.
3) Avaliação de resultados (eficácia e rendimento).
4) Planificação de um sistema de qualidade ambiental para recuperação de pedreiras (protocolos de qualidade, manual de recuperação).


Este artigo foi escrito originalmente para o Infociências